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sexta-feira, 30 de março de 2012

se arrependeu?


Amigo: — Cara, você se arrependeu de ter terminado com ela?
Ele: — Olha pra mim, você acha que eu me arrependi? Eu saia sexta e só voltava segunda de manhã pra trabalhar. Eu peguei a mãe, a filha, a prima, a tia e só não peguei a vó da vizinha, porque ela tinha hemorroida. Eu tinha cortesia pra entrar nas melhores baladas. Eu esnobei as garotas que todos os homens queriam pegar. Transei de segunda à sábado, e domingo eu via futebol. Detalhe, sem ninguém me chamando pra ir ver a porra do casal feliz no Faustão ou sei lá o que. Me mandavam mensagens o dia todo e se você perguntar se eu li alguma eu vou te dizer que não. Eu podia ver filme pornô, levar a guria que eu quisesse pra minha cama e depois chamar o taxi pra ela ir embora pra eu não precisar gastar gasolina, porque convenhamos, tá cara pra caralho. Eu era o que elas queriam de qualquer jeito. E eu, queria todas de qualquer jeito, mas só um pouquinho cada uma. Chamava todas de bê, pra não errar o nome de nenhuma. E por que diabos elas achavam que isso era fofo? Eu ia pra academia as três das tarde e voltava as oito da noite. Tenho uma coleção de calcinha perdida na última gaveta da minha estante. Eu saia na rua com o som alto no carro e podia escolher a dedo, quero essa, depois essa e mais tarde, essa. Na minha geladeira nunca tinha uma caixa de cerveja, eram no minimo quatro. Eu não devia nada pra ninguém. A única guria que me cobrava alguma coisa, era minha mãe. Me cobrava minha cueca lavada e só. Não tinha que ir no cinema ver as comédias românticas e falar “own amor, eu faria o mesmo por você”. Não tinha que deixar de ir pra balada pra fazer um lanchinho em família. Não precisava me preocupar em horário e olhava pra quem eu queria na rua. Minha casa tinha festa toda quarta. Camisinha aqui tinha do Bob Esponja até das Três espiãs demais. E eu ainda dava de brinde um moranguinho pra cada garota. Meu trampo era sentado na frente do computador. Peguei tua irmã cara. A amiga dela. A Carolzinha filha do Prefeito da cidade. A Jú filha do gerente do banco. Loira, morena, ruiva, que gostava de pagode até a que gostava de gospel. Eu tinha o mundo na minha mão. E você me pergunta se eu me arrependi? Me arrependi caralho. Porque toda essa porra de vida perfeita nesses 4 meses que fiquei sem ela não teve valor nenhum depois que eu vi ela sorrindo de um jeito que nunca sorriu pra mim, pra um outro cara aí. Pra um vagabundo desgraçado que vai fazer ela feliz, porque eu, eu não fiz ela feliz e ainda mandei a melhor coisa que eu tinha na vida me esquecer. E sabe o que é pior? Ela me obedeceu.

segunda-feira, 12 de março de 2012

não fala;


A gente nunca foi de falar sobre sentimentos. Não sei se aprendi a ser discreta ou se a sua frieza me contagia. Só que eu sinto mil coisas ao mesmo tempo, coisas que eu nem sei traduzir em palavras. E sei que você sente também. Só não sei o que, nem o quanto... Sei que mesmo a gente não tendo um compromisso oficializado a gente tem sim um compromisso. A gente se respeita, se considera, a gente é sim um casal. Um casal lindo. Quando eu to contigo eu sou tão sua e te sinto tão meu. Não que eu também não seja sua quando eu to sozinha ou com outros...Até hoje eu não sei se o nosso grande problema é o seu apego idiota a sua liberdade, ou a minha bipolaridade maldita, que na nossa história, de alguma forma é abafada por essa sua escolha de ter a mim e o mundo, sem abrir mão de nenhum dos dois. Também não sei se o que me prende tanto a você é justamente essa impossibilidade de sermos, finalmente, nós. Mas alguma coisa me prende, e me prende demais. Você é assim, frio, desapegado, mulherengo; eu diria que você é um típico homem, por isso não te culpo. Afinal, também sou uma típica mulher, tão complicada e intensa e bipolar e mil coisas em uma só.E ninguém entende a minha persistência na nossa história. Minhas amigas quase me matam todas as vezes que eu quase termino contigo e desisto, porque eu sem você também sou quase. Quase completa, quase feliz, quase mulher. Mas ninguém enxerga o brilho nos seus olhos quando a gente tá a sós e se curtindo, ninguém sente seu coração pulsando quando a gente se abraça forte, nem sente como somos quase um só quando a gente se beija e se ama, como o seu corpo transmite um calor que meu corpo nunca havia conhecido e como o meu reage a tudo isso. NINGUÉM conhece a nossa magia, a pureza do nosso amor... eu e você somos os únicos que podemos nos julgar ou saber o que é melhor pra gente. Eu continuo nessa bola de neve porque ninguém faz eu me sentir como eu me sinto nos nossos momentos. Se a gente não se tem sempre ou pra sempre, o importante é que a gente se tem. Nunca iria me perdoar desperdiçando tudo que a gente construiu mesmo querendo sempre não construir nada, não se envolver. A gente virou a gente sem querer, remando sempre contra a maré, e isso é tão bonito. Eu te amar por destino só completa a nossa magia. Eu já disse que te amo, algumas poucas vezes que meu orgulho permitiu, e repito sempre com a mesma intensidade pra mim mesma, quando penso em desistir. Mas quer saber ? A gente nunca precisou de palavras pra se entender, se sentir. E eu sei que você me ama também, sei além do que você diz. Eu sempre sei.

quer saber?


O dia seguia na correria de sempre, mais um dia, um dia a mais ou a menos, nada fora do comum. Pessoas se esbarrando, sem pedir desculpa ou licença. Mulheres reclamando de falta de atenção ou excesso dela. Homens comentando o placar do futebol e julgando o juiz. A insatisfação de sempre, enquanto o sol irrita e a felicidade se camufla. Mas espera um pouco, quem é a menina de vestido? Gosto do florido, desse clima de verão envolvendo o corpo cansado. Interessante o cabelo voando, escondendo um sorriso cheio e atrapalhando aquele olhar vazio. Por que ela sorri? O dia tá insuportável e pra completar é segunda-feira. Impossível não reparar na moça, no contraste do batom vermelho e o colorido do vestido, sutil e marcante. Talvez não seja a roupa ou a maquiagem, mas essa tranquilidade no meio do caos, esse brilho nas ruas cinzas, por que, menina? Como ela consegue? Muitos olhavam, comentavam, se inquietavam, até que uma menina de no máximo dezoito anos, com olhos cansados e olheiras fundas, resolveu acabar com o mistério e tirar essa história a limpo."- Ei, você! Desculpa meu mau jeito, mas eu preciso saber como você consegue." A moça, surpresa , deu um sorriso simpático e perguntou sem entender "-Como eu consigo o que?" "Ah, como você consegue isso! Andar reta e não tropeçar. Ser esbarrada e não se incomodar, não fazer cara feia. Pisam no seu pé e você quem pede desculpa. Seu vestido voa e te deixa leve. Seu sorriso é paz, mas seu batom te pesa. Não te vi reclamando da fila, do calor, dos homens. Você só sorri e anda com tranquilidade e segurança. Mas esses olhos, ah, eles não me enganam, não! Tá vendo os meus? Me faltam lágrimas. Inundei tudo por dentro de mim já. Durmo poucas horas, fora as noites que nem durmo. Olho pros lugares e não vejo cor. Independente de quantas pessoas estejam ao meu redor, estou sempre só. Ele não me ama mais, nem sei se me amou um dia. E seu olhar não é muito diferente do meu, eu sei. Mas como, me diz como você faz pra viver em paz e não em dor?" A moça abaixou a cabeça pela primeira vez no dia, enxugou a lágrima da menina e sentiu o peso de um desamor em forma de gota. Mas ela já conhecia esse peso, então pegou seu batom na bolsa e deu para a jovem. "-Sabe, é muito difícil aceitar um fim, quando o ponto final não parte de nós. Mas qualquer dor é melhor que ficar sofrendo sempre ao lado de alguém que não reconhece o nosso valor, não faz questão da gente. E ficar fazendo planos e contando sonhos pra uma pessoa que não te inclui nem no plano de ir a uma droga de churrasco no fim de semana. E no início tudo pesa, existir pesa. Mas aí as lágrimas secam e você percebe que nunca foi amor. Nunca foi recíproco. Aí você adiciona na lista de ilusões e foca o pensamento em outras coisas, pessoas, em você. E aprende a se amar sozinha pra nunca mais aceitar ser amada pela metade e ainda agradecer. Hoje eu ando em paz, porque não caminho mais sozinha ou pela metade. Sempre me acompanho e, antes de alguém elogiar meu vestido ou cabelo, eu já o fiz antes de sair. Tá vendo esse sorriso? Eu protejo com meu batom vermelho e, mesmo sem vontade, sorrio. Porque minha felicidade é isso, eu, comigo, por mim. E depois que eu entendi tudo isso, todo o resto aconteceu de forma natural. Então passa esse batom e nunca mais deixa ninguém roubar essa paz do seu sorriso, porque nunca vale a pena!" E a moça continuou seu caminho. A menina limpou a última lágrima, passou o batom vermelho e seu vestido começou a voar.